Foto: @Messistaa10_
Momentos antes de Inglaterra 2 x 1 Congo pela segunda fase da Copa do Mundo, o técnico da seleção africana, o francês Sebastien Desabre foi informado que o seu pai acabara de morrer. Ele, que conseguiu levar o país a uma Copa depois de 52 anos e fez uma boa primeira fase, foi para o banco e comandou a equipe. Só depois foi se juntar à família na França e participar do velório e enterro do pai, que já estava doente.
Messi vivia angústia semelhante. Sabia que a qualquer momento poderia receber notícia semelhante durante o Mundial. Na última sexta-feira, 7, lá se foi Jorge Horacio Messi, aos 68 anos, em um hospital em Rosário, na Argentina, vítima de problemas decorrentes de um câncer.
Vale demais a pena ler este artigo/reportagem do Jorge Barraza, grande jornalista argentino, que tive o prazer de conhecer quando ele era diretor de comunicação da CONMEBOL nos anos 1990.
“ELE DEU TODA A SUA VIDA”

Por Jorge Barraza
O ambiente do futebol e do jornalismo sabia alguns dias antes da Copa do Mundo: “O pai de Messi está morrendo, é questão de um momento para o outro”.
A pergunta instantânea era: o que Leo vai fazer, vai jogar…?
Envolto em uma enorme angústia, ele jogou, sabendo que poderia receber a notícia a qualquer instante.
Inclusive que seu pai poderia morrer enquanto ele estava celebrando um gol.
Por isso, ele desabou em prantos após seu primeiro gol contra a Argélia. Mas Jorge Messi sabia o que aquela última Copa representava para Leo. Ele certamente fez o esforço para aguentar.
Consciente até o último suspiro, porque o câncer faz você ver que está acabando com você. Pediu ao filho que jogasse e ao seu corpo que resistisse.
Os 8.742 quilômetros entre Rosario, onde Jorge estava internado, e Kansas, onde Leo se concentrava com a Seleção, eram outra barreira de angústia. O destino quis assim e havia que enfrentá-lo.
Raramente a figura paterna foi tão determinante na vida de um ídolo.
Como todo argentino, e mais ainda rosarino, Jorge Horacio Messi sonhou em ser jogador de futebol. Testou nas categorias de base do Newell’s Old Boys, o time de seu coração como torcedor, e não deu certo, não chegou lá. Dedicou-se aos estudos, formou-se técnico químico e alcançou uma gerência na Acindar, a maior indústria de aço da Argentina.
Todos os dias, 60 quilômetros de ida e 60 de volta até Villa Constitución, onde fica a fábrica. “Meu pai saía às 4 da manhã e voltava às nove da noite, eu o esperava ansiosamente para abraçá-lo”, confessava Leo.
Mas a vida o recompensaria amplamente através daquele filho, o terceiro de seus quatro: Lionel Andrés. Aos 7 anos, levou-o à escolinha do Newell’s e, de fato, confirmaram que o menino era bom, bom demais, embora não crescesse. Fazia anos e não passava de um metro e trinta.
A família se preocupou. Após diversas visitas médicas, o endocrinologista rosarino Diego Schwarzstein confirmou que havia um problema: déficit no hormônio de crescimento.
Se não fizesse um tratamento rigoroso, não passaria de 1,55 ou 1,60 de altura.
O salário não dava para tudo e a terapia era cara; o Newell’s informou que não podia arcar com isso, ainda mais em uma criança tão pequena, que, pela idade, ainda não alcançava nem para jogar nas divisões inferiores da AFA. Estava apenas nas infantis.
Ninguém imaginava o que viria depois. Ali começou a se agigantar a figura paterna. Ele moveu o mundo. Foi uma cadeia de contatos. Alguns amigos falaram-lhe de um empresário rosarino radicado em Barcelona: Horacio Gaggioli. Chegou até ele, mas Gaggioli disse o mesmo que o Newell’s: “Tem onze anos, é muito pequeno para trazê-lo à Europa, temos que esperar um pouco”.
Jorge não se preocupava que ele pudesse se frustrar como jogador de futebol, mas sim com o possível nanismo de seu filho. Finalmente, as gestões deram fruto. Gaggioli entregou um vídeo a Josep María Minguella, célebre agente catalão que faz parte da vida do FC Barcelona. Ele levou Maradona, Stoichkov, Romário, Rivaldo…
Ficou impressionado: “Vi o vídeo que fizeram de Messi em sua escola, no qual realmente se percebia como ele pegava a bola mais longe do meio-campo e ia driblando rivais até chegar ao gol adversário. Não perdia tempo com passes nem floreios, era muito direto. Algo que depois fez mil vezes”, conta Minguella.
E continua: “Chamou minha atenção, vi-o diferente. Não quis contar a nenhum Valencia ou Madrid.
No Barcelona, no início, não estavam a fim do assunto, não tinham orçamento para o futebol de base e também não se trazia estrangeiros. Era muito pequeno fisicamente e isso gerou dúvidas. Pensavam que ele ia colidir com qualquer jogador e o matariam. Levamos-no a Carles Rexach”.
Rexach, antigo companheiro de Cruyff, estava com o time principal do Barça, mas fez Messi viajar com seu pai e que seus assistentes o testassem nos infantis. “Eu lhes disse para observá-lo, que não precisava ser bom, mas muuuuuyyy bom, porque contratar um estrangeiro naquela idade era um esforço grande demais.
Eles me disseram que sim, que era um fenômeno, mas que não chegaria à Primeira por causa do físico. ‘Ora, é um jogador de sinuca’, diziam-me. Até que decidi ir vê-lo eu mesmo. Preparei um jogo com garotos dois anos mais velhos, para complicar bem. E me posicionei atrás de um arco onde ele atacava. Tinha minhas dúvidas, parecia pequeno demais e não falava.
Quando terminou, disse aos meus colaboradores: não é normal, é de outra galáxia, temos que contratá-lo”.
No entanto, o Barcelona demorava, não redigiam o contrato e Jorge Messi estava apressado, precisava voltar ao trabalho. Exigiu uma definição. “Estávamos no bar do Club de Tennis Pompeia – volta Minguella.
Ali, para tranquilizar o pai e que não nos escapasse, fizemos um contrato em um guardanapo, o famoso guardanapo”. Foi em 14 de dezembro de 2000. Após anos de incansáveis gestões, Jorge Messi havia conseguido: seu filho receberia o tratamento adequado e jogaria futebol, nada menos que no Barcelona. Tinha 13 anos e meio.
A propósito, o famoso guardanapo foi leiloado em Londres em 17 de maio de 2024 por 762.000 libras esterlinas, equivalentes a aproximadamente 967.000 dólares. Gaggioli o tinha em sua posse.
Pouco depois, Jorge deixou seu emprego em Rosario e se dedicou cem por cento a conduzir a carreira de Leo. Construiu uma couraça ao seu redor. Cuidou dele.
Messi chegou à Primeira e havia começado a sair à noite com Ronaldinho, Deco e Rafa Márquez. Seu pai o esperava acordado às cinco da manhã. “Leo, isso não vai, amanhã você tem que jogar”.
Apesar de não ser o seu forte, começou a gerenciar os primeiros contratos, as primeiras propagandas, o acompanhou a cada jogo, a cada reunião, a cada prêmio que recebia.
Inculcou-lhe a humildade, os silêncios. Fez do perfil baixo uma catedral: apesar de Leo ser a personalidade mais famosa do mundo, pouco se sabe dos Messi.
“Jorge era um bom homem, muito humilde e ultra reservado, impregnou Leo com a importância da disciplina, da vida saudável e de todos os valores que ele agora transmite a seus companheiros como capitão de equipe”, conta Martín Casullo, autor do livro Elegí creer, sobre a vida do gênio, para a Fundação Messi, a pedido de seu pai.
“Ele queria, e conseguiu, que toda a família estivesse integrada em torno do 10. Rodrigo, o irmão mais velho, com as empresas; Sol, sua irmã mais nova, com as redes sociais e a marca Messi; Matías é o presidente do Club Leones, que é de propriedade familiar; as cunhadas e cunhados ligados aos diversos negócios”.
Dondinho, pai de Pelé, foi um jogador de futebol frustrado. No dia de sua estreia no time principal do Atlético Mineiro, o fraturaram. Nunca mais foi o mesmo. Por insistência, conseguiu jogar depois no minúsculo Baurú Atlético Clube. Dirigiu sua paixão para preparar seu filho. Iam ao campinho, só os dois, e o fazia chutar com a esquerda, com a direita, de cabeça, parar de peito… Mas, assim que Edson chegou ao Santos, aos 15 anos, Dondinho voltou à sua vida em Baurú.
Don Diego, o querido progenitor de Maradona, fez esforços descomunais por seu filho: “Meu pai saía para trabalhar de madrugada, chegava em casa depois das duas da tarde, comia algo e, cansado como estava, saía de novo e me levava para treinar no Argentinos Juniors. Tínhamos que pegar três ônibus de ida e três de volta”. Contava Diego Armando, de quando ainda era o Pelusa de Villa Fiorito. Jorge partiu jovem, na meia-noite de sexta-feira, aos 68 anos. Se não tivesse se dedicado com a tenacidade que o fez, certamente o futebol mundial teria perdido Messi. Primeiro o trouxe ao mundo, depois lhe entregou sua própria vida.

