A Nova Lei de Gérson – “Como levar desvantagem em tudo”. Certo?

Foto: Cruzeiro E. Clube

Coluna do genial caratinguense Ruy Castro, hoje, na Folha de S. Paulo:

“O tricampeão Gérson ficou marcado porque queria levar vantagem em tudo, certo?

O novo Gerson, ex-Flamengo, hoje no Cruzeiro, preferiu levar desvantagem em tudo

Em 1976, Gérson, meia da seleção brasileira tricampeã do mundo, marcou época na TV com um comercial do cigarro Vila Rica, em que dizia: “Por que pagar mais caro se o Vila Rica me dá tudo que eu quero de um bom cigarro? Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também. Leve Vila Rica”. O Vila Rica, fabricado pela Reynolds, era barato mesmo: custava Cr$ 5 o maço contra os Cr$ 13 do Hollywood, da Souza Cruz. Mas a única pessoa que levou vantagem em fumar Vila Rica e está viva para contar é o próprio Gérson, 85 anos, tranquilo em Niterói e sem fumar desde 1999.

Mas foi uma dúbia vantagem. O bordão “levar vantagem” tornou-se sinônimo de malandragem, falta de ética, passar para trás. Criou-se a Lei de Gérson para definir esse comportamento. Mas Gérson, coitado, era apenas o garoto-propaganda do comercial. A frase pertencia à Salles Interamericana, agência que detinha a conta da Reynolds, e seu autor era o publicitário Jacques Lewkowicz. A Salles nem existe mais, mas Gérson nunca se livrou da frase.

Pois isso agora pode mudar —porque temos um novo Gérson e uma nova lei na praça. Trata-se de Gerson, ex-meia do Flamengo, vendido no ano passado ao Zenit, da Rússia, e já de volta ao Brasil, agora no Cruzeiro. Há tão pouco tempo, Gerson era o capitão do Flamengo, ídolo da torcida, o maior salário do clube e titular da seleção. Mas seu pai e empresário, o impopular Marcão, adora vendê-lo para a Europa. E, mais uma vez, Gerson foi, viu e não venceu. Na primeira, o Flamengo o quis de volta. Desta vez, nem pensar —mesmo porque ganhou tudo em 2025, Brasileiro e Libertadores, sem ele.

Flamengo e Cruzeiro se enfrentaram outro dia no Maracanã. Gerson foi vaiado por 60 mil pessoas que o amavam. Perdeu o jogo, seu clube está na lanterna e ele saiu da seleção. Ao ser substituído, podia-se vê-lo no banco de reservas, olhando para as arquibancadas e talvez se perguntando se levara alguma vantagem no que fizera.

É a Nova Lei de Gerson: “Como levar desvantagem em tudo”. Certo?”

Ruy Castro

Jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues, é membro da Academia Brasileira de Letras

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ruycastro/2026/03/a-nova-lei-de-gerson.shtml?utm_source=twitter&utm_medium=social&utm_campaign=twfolha

Pra matar saudade do comercial

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