“Não se pode acreditar em mais nada. Sempre penso ser a última vez que me deixo enganar por um mau-caráter — até aparecer outro”

Foto: @carlosferreroficial

Meus prezados e prezadas, a frase título deste post não é minha, mas a utilizo com se fosse, pois gostaria muito de ter me antecipado ao Carlos Ferrer, amigo de décadas, mais conhecido como Baiano, um dos maiores cruzeirenses da história, das arquibancadas, da saudosíssima geral do Mineirão, dos tempos em que as torcidas do Cruzeiro e do Galo vibravam como se fosse um gol, quando a PM tinha que “arredar” a corda pro lado adversário, com a chegada cada vez maior de uma delas.

Baiano é artista da moda, criador de camisetas de protesto famosas, empresário e ótimo escritor. Quem quiser conhecê-lo melhor, só ir até o instagram.com/carlosferreroficial. Recebi texto dele, que compartilho honrosamente com vocês, que é exatamente o que eu penso, sobre o futebol e sobre o Brasil da atualidade.

Se encaixa numa das mais belas músicas do também cruzeirense, Milton Nascimento, Certas Canções, que diz logo na primeira estrofe:

“Certas canções que ouço
Cabem tão dentro de mim
Que perguntar carece
Como não fui eu que fiz;;”

*Jardim de Ervas Daninhas*

Por Carlos Ferrer/Baiano

As ervas daninhas se espalharam por toda a Terra e apodreceram seus jardins; agora, só o dinheiro é um fertilizante que fala mais alto. A última esperança de passar responsabilidade aos seres humanos foi a inocente frase de Voltaire, finalizando seu belo romance Cândido: “_precisamos cultivar nosso jardim”.

O mundo atual pertence aos roedores. Não se pode acreditar em mais nada. Sempre penso ser a última vez que me deixo enganar por um mau-caráter — até aparecer outro. Um imbecil como eu é sempre uma presa fácil, que cai como um patinho em suas armadilhas (lábias), com cara de babaca. O tempo da ética e da honra está tão distante que pouca gente lembra. Mas quem ainda tem memória morre de saudades.

Ah, como eram inocentes as pessoas que tinham sua palavra como uma coisa sagrada! Um tempo em que um Zico jamais jogaria no Vasco. Dr. Sócrates, por dinheiro nenhum, vestiria a camisa do Palmeiras. Tostão no Galo era inimaginável. Tempo em que um presidente preferia dar um tiro no peito a sair escorraçado do poder. Mais recente, Zidane encerrou a carreira como vice-campeão da Copa, foi treinar o Real Madrid e parou com tudo para viver a vida. Seguindo os passos de Johan Cruyff, que treinou o Ajax e o Barcelona, ganhando uma fortuna, implantou a maneira como o mundo joga futebol hoje e não treinou mais ninguém. Pão e circo têm sua nova versão no futebol: os palhaços são os espectadores, e o pão vem em esmola no cartão digital.

O futebol lava o dinheiro, e a corrupção corre atrás da bola. O pior torcedor é aquele que não quer ver no que se transformaram os nossos sonhos dentro das quatro linhas.

Meu querido leitor, amante do futebol, antes de você me dar o cartão amarelo ou vermelho, lembre-se que eu ainda nem falei dos sites de apostas. Hoje, tudo é suspeito nos gramados: o gol, o cartão, a expulsão, a falha do goleiro, o gol perdido — até o beijo no escudo do time pode ser falso. Um dia o povo dará um chute no traseiro dessa lama, mas tudo indica que a prorrogação será longa.

Mas, por enquanto, “o certo é que está errado, e o errado é que está certo”, como dizia o velho Kafunga!

* Carlos Ferrer/Baiano

Belo Horizonte, 4 de março de 2026

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